Os filhos não sabem, não imaginam, de quantas mãos deslizando pelos seus cabelos enquanto dormem, à noite, eles são feitos; não sabem com quantos olhares a distância, com quantos olhares de perto, com quantos olhos maravilhosamente encantados e admirados, seus dias de criança são construídos; não contam os mililitros, rosados ou não, com os quais são preenchidos para as muitas curas; não conhecem as pomadas que são passadas por cima de suas dores; não lembram a quantidade de mamadas, translactações, fórmulas e mamadeiras espalhadas por longos dias; não recordam as roupas que vão se apequenando e indo morar em outras paragens e os sapatos sempre ficando apertados; não atentam para o relógio e a correria para chegar a tempo, para não atrasar; não conhecem as tarefas imprensadas umas nas outras para dar tempo de vê-los, na hora que tem que ser; não viram os carros parados na porta da escola, com gente sentada há mais de dez minutos, esperando tocar o sinal para pegá-los; não percebem os desejos de felicidade dentro dos presentes nem dentro dos dias; não percebem de quanta culpa, de quantas vontades, de quanto amor e quanta alegria são feitos cada milímetro de pai e mãe. E isso é bom. Ser amado é não saber de muitas coisas.

CRÔNICAS DA URBE
Por
 Rafiza Varão  |  Foto Ilustativa