Especialista do Hospital Anchieta explica como ocorre a cirrose. O abuso de bebidas alcoólicas está entre as principais causas da doença, seguida pelas infeções virais.

A cirrose é uma doença do fígado que se caracteriza por fibrose e formação de nódulos que bloqueiam a circulação sanguínea do circulo portal (a rede vascular dos órgãos abdominais). Pode ser causada por infecções, inflamação crônica e alterações vasculares e metabólicas. Frequentemente, esta patologia é associada ao consumo desmedido de álcool e a algumas infecções, como a hepatite C, hepatite B e a esquistossomose (comum no nordeste do Brasil, particularmente na bacia do Rio São Francisco). O estímulo inflamatório faz com que o fígado produza tecido fibrótico em excesso com progressivo comprometimento das funções hepáticas.

“Geralmente a cirrose ocorre em um fígado que já foi submetido a muitas injúrias, a muita inflamação por razões diferentes (virais, metabólicas, tóxicas). Quando a fibrose chega a um nível avançado, chamado F4, você pode considerar o fígado como ‘cirrótico’. A cirrose em si é a etapa final de um estímulo inflamatório no fígado que , geralmente, permaneceu por um prazo de tempo bem longo, às vezes 20, 30 anos”, explica o gastroenterologista Paolo Nieddu, do Hospital Anchieta.

Causas e fatores de risco

Entre os “hábitos comportamentais” mais correlacionados à cirrose o consumo alcoólico é o mais comum. Quando o órgão é exposto a doses excessivas de álcool, sofre danos tóxicos a nível celular que comprometem seu funcionamento. As hepatites crônicas provocadas pelos vírus B e C, pelo uso de determinados medicamentos e a hepatite autoimune também podem causar cirrose. Um fator de risco importante a ser destacado é ter alguém dentre os familiares de primeiro grau que já teve a doença. Pessoas que sofrem com obesidade e diabetes também precisam ter cuidado e controlar constantemente a glicemia, o peso corpóreo e as enzimas hepáticas.

“Há quatro anos, o consenso da “Associação Europeia para o Estudo do Fígado” (EASL) reconheceu que não existe uma quantidade mínima de álcool que exclua o risco de cirrose. Nos últimos dez anos, foi descoberta a cirrose por aperitivo. Qualquer pessoa que consome bebida alcoólica continuamente deve fazer acompanhamento com um hepatologista ou gastroenterologista”, alerta o Dr. Nieddu.

Sintomas

De acordo com o especialista, o fígado é um órgão muito forte que se regenera sozinho, então, quando o quadro evolui para cirrose, os sintomas são intensos. “Alguns exemplos são: olhos e pele amarelados (icterícia), urina escura. Em casos mais avançados, pode ocorrer a encefalopatia hepática (síndrome que provoca alterações cerebrais devido ao mau funcionamento do fígado), a síndrome hepatorrenal (em que os rins não conseguem filtrar bastante sangue), a síndrome hepatopulmonar (em que os pulmões não conseguem oxigenar o sangue suficientemente), vômito sangrento (rupturas das varizes esofágicas) e a presença de líquido no abdômen (ascite)”.

Tratamento

O primeiro passo é eliminar o estímulo inflamatório. Se o paciente tem uma cirrose alcoólica, deve acabar com o consumo de qualquer bebida alcoólica. “Se for viral, o tratamento será exclusivamente para eliminar o vírus que causou aquele problema. Se a pessoa tem cirrose metabólica, por obesidade, por exemplo, o tratamento será focado no emagrecimento. Se tem uma cirrose por acúmulo de cobre, ferro ou outra substância, o tratamento será para retirar este excesso do organismo com medicamentos. Tudo isso tem que ser acompanhado por um cuidadoso estadiamento (e controle) das complicações típicas da cirrose”, conclui Paolo Nieddu.