Águas Claras é cidade vista por lentes que transformam a vida em estereótipo – há alguma que não seja? Aqui, pelo vidro que faz com que a visão dos de fora converta gente em caricatura, se bate panela, não se anda na rua, varandas gourmet exibem um privilégio destituído de inteligência. Estereótipos funcionam muito bem para quem se satisfaz com pouco. Mas quem vive aqui sabe: não somos uma interpretação diminuta. Foi sem filtro que os enxerguei.

Bermuda verde, camiseta marrom, pé descalço. Pele negra, bronzeada, suada pelo esforço e pelo sol. Um certo sofrimento no rosto. Arrastava uma grande carroça de ferro, com entulho, rejeito, recicláveis. Bermuda azul, camisa polo branca, boné também azul, pés calçados em tênis e meias. Pele branca, idosa, vermelha. Um certo sofrimento no rosto. Havia saído para caminhar? Não sei. Sei que se encontraram ali, na subida final da avenida Castanheiras.

Enquanto eu aguardava pela movimentação do tráfego, eles se enxergaram. Entraram em acordo numa fração de segundo, jovem e velho. Passaram, os dois, a puxar a carroça – bem naquele pedaço de asfalto. Foram juntos, até que julgaram não ser mais necessário.

O sinal verde me mandou ir embora. Olhei pelo retrovisor. Se despediram. Um sacou uma havaianas da carroça e se calçou. O outro subiu mais uma rua. No caminho pavimentado que separa prédios, dois mundos se tocaram por acaso. Poderiam ter sido um estereótipo que olha para outro e segue em frente. Mas foram gente, a olho nu.

CRÔNICAS DA URBE
Por
 Rafiza Varão  |  Foto Alex Monteiro